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'A Sangue Frio' e os detalhes de um assassinato ocorrido há 60 anos

'A Sangue Frio' e os detalhes de um assassinato ocorrido há 60 anos

Foto: Ana Bubola 

Há alguns anos, eu não costumava ler muito. Por simples falta de interesse ou talvez por ter lido poucos livros dos quais realmente gostei, achava que jogar videogame, por exemplo, era muito mais divertido do que sentar um pouco, se desligar do mundo exterior e ler uma boa história. Aos poucos, fui mudando minha percepção, e um dos livros que colaborou para isso foi A Sangue Frio – Truman Capote, Companhia das Letras, 2011. 

Na verdade, o livro foi publicado originalmente no ano de 1965, na revista The New Yorker. A Sangue Frio é um relato completo, denso e impressionante de tudo que cercou o assassinato da família Clutter, em novembro de 1959, no Kansas. O autor, Truman Capote, atuou como um legítimo detetive, visitando a pequena cidade de Holcomb (palco da chacina que vitimou os pais e dois filhos), a fim de conversar com os moradores da região para posteriormente produzir aquele que é um dos livros mais conhecidos do Jornalismo Literário. 

O mais incrível era que Truman Capote não utilizava gravadores ou bloquinhos de anotação. Sua maior aliada era sua própria memória. E foi assim que ele obteve dos dois assassinos, Perry Smith e Dick Hickcock, todo tipo de detalhe: as motivações para o crime, o passo a passo do dia da matança, incluindo os momentos finais de cada uma das vítimas, e também, a expectativa no corredor da morte para a execução de ambos (ocorrida cinco anos após o assassinato dos Clutter). 

O livro é como uma viagem de volta ao passado. Por ser uma história real e não de ficção, acredito que A Sangue Frio é mais impactante do que histórias fictícias com contornos parecidos. Truman Capote foi genial também ao não emitir juízos de valores, algo que ele poderia de repente ter feito com os condenados Perry e Dick. No entanto, tudo que o autor fez foi narrar os bastidores de um crime que chocou os Estados Unidos da América à época. Foram seis anos apurando e se informando sobre o assassinato, que permitiram a Truman Capote traçar um grande perfil até mesmo de pessoas que ele não conheceu, como os quatro integrantes da família Clutter. 

São 432 páginas que não cansam o leitor. O melhor de tudo é que Capote, falecido em 1984, produziu um livro à altura do empenho direcionado à obra durante os seis anos de pesquisa sobre os fatos que ocorrem em Holcomb, no longínquo mês de novembro de 1959. Durante a leitura, temos muitos diálogos entre Perry e Dick, traduzidas em citações que dão ainda mais peso ao livro. É possível até imaginar Truman Capote sentado com ambos em suas celas na prisão, em conversas nas quais os dois algozes da família Clutter faziam questão de contar tudo, sem nada a esconder. 

A Sangue Frio é, de verdade, uma obra-prima. Merece esse título e merece ser lida por muitos e muitos anos. Se você gosta de livros que retratam a realidade muitas vezes pura e mórbida da vida, pode ter certeza que A Sangue Frio não vai decepcionar. 
 

Colunistas - RIC Mais PR
Guilherme Osinski
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Formado em jornalismo pela PUCPR, Guilherme Osinski é natural de Curitiba e apaixonado por livros, principalmente os de suspense e ficção policial.

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