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Camisa enfunada pelo vento do tempo

Camisa enfunada pelo vento do tempo

A curva da velha estrada encobriu o tempo, os sonhos, os medos.

De pés descalços, o menino ainda pisa a poeira fina sem ligar para a sujeira.

No calorão de dezembro, solitário, com bicho-de-pé a latejar, ele se vai.

Pisando a geada intensa em pleno mês de julho, o menino sonha, sai do corpo.

Ele encobre na curva da estrada e por vazes para na sombra de uma árvore capenga.

Sobra-lhe imaginação e ele só quer ser gente grande, viajar, discutir a vida.

Mas não há como o menino viajar, pois já nasceu preso à pobreza, ao nada ser.

Correntes da fome lhe prendem à terra esquisita e árida. Invisível, sua cela é poderosa.

Sem escolha, o menino imagina um mundo para além da curva, para além de si.

 

A boca fica ferida por chupar laranja verde colhida às escondidas.

A unha arrancada numa partida de futebol é mero detalhe.

A alma do menino se manteve imaculada, porém presa naquele espaço.

Por muitos e muitos anos a vida lhe pareceu engarrafada, hermética.

Teimoso, o menino conseguiu dar alguns passos para além da curva.

A dor foi grande, pois o chicote trançado da vida não perdoa nenhuma pele.

Ferido, ele enfunou a camisa simples no vento contrário e desconsiderou a dor.

O frio nas costas machucadas era unguento, óleo quase santo num batismo estranho.

Desfez-se das amarras quando se sentiu seguro e descobriu-se com asas poderosas.

 

Depois de algum tempo sem olhar para trás, enfim, sentiu-se seguro em fazê-lo.

Vestiu-se de esperanças e deixou que a vida se encarregasse do resto.

De cara suja, foi-se o menino pela vida afora. Disse e ouviu muitas coisas.

Seus feitos nunca serviram de exemplo, mas passou a se sentir bem.

Apesar da curva da estrada ainda lhe assombrar, hoje ele sorri com verdade.

Os fantasmas do passado foram se dissipando. Restou pouca coisa daquele tempo.

Em dias de frio intenso, ao acordar e tocar o chão quente e macio sente arrepios.

O gelo daquela época de dor e amargura lhe afeta a alma. Chora. Expiação?

Ele ainda não está de todo limpo, pois certas coisas permanecem no gene.

 

O sono às vezes bate no cansaço e não há sossego. Há conflito nas células.

Pela casa, o homem de meia-idade e o menino se encontram, se tocam.

Trocam afagos, carinhos e farpas. O homem é ranzinza e o menino não obedece.

Na convivência meio esquisita, os dois seguem pela vida tentando entender-se.

Nos dois, há uma espécie de honra ao mérito por vencer a curva da estrada.

Em dias de verão escaldante, o homem toca a mão do menino e o conduz como pai.

Ele oferece um amparo, mas não é mais preciso. A vida vai além de formalidades.

Caminha o menino em meio à poeira fina de um seco dezembro. Tudo ainda está lá.

Toca o chão do agora o homem de meia-idade, sem esquecer o gelo de julho do ontem.

 

Jossan Karsten

 

Colunistas - RIC Mais PR
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Jornalista, publicitário e escritor.

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