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Carpinteiro

Carpinteiro

Há um carpinteiro invisível na incansável tarefa de manter as coisas em ondem.

Sem ruídos de martelo ou formão, ele trabalha dia e noite e suporta as intempéries.

Pelas partículas de tamanhos ínfimos o carpinteiro se desloca, viaja, vai além.

Pelo universo denso e sombrio, há tarefas intermináveis nesta reconstrução.

 

Alheio a tudo isso, passamos belo carpinteiro sem ao menos dizer lhe bom-dia.

Cavacos voam no corte de sua enxó e formam estrelas cadentes de beleza ímpar.

O carpinteiro, astuto que é, limpa o suor de seu rosto e prossegue com sua saga.

Mesmo ante as tribulações, desmandos e abusos, o carpinteiro cumpre com sua messe.

 

Voa o tempo e o universo muda. O carpinteiro é a mudança real, viva, perspicaz.

Em cada golpe preciso na madeira, a construção se mostra, se eleva, se faz.

O carpinteiro sorri, não de orgulho, isso, jamais. Ele sorri por ter a graça de trabalhar.

A noite vem saudá-lo. Acolhe o bálsamo da brisa, mas não para. Cuidar requer atenção.

 

Quando a sede aperta, o carpinteiro dá um tempo, mas não desvia o olhar da vida.

Vigiar está em seu gene divino. Sabe ser soberano sem cometer desmandos de rei.

Aprecia as cores que dançam em frente aos seus olhos. Há sincronia nos movimentos.

Planetas, galáxias, estrelas, luas, poeira cósmica, tudo vira elemento de criação.

 

No tempo certo, o carpinteiro também age como jardineiro, agricultor, oleiro.

De sua criação, tira o sustento que envia com amor e gosto a quem necessita.

Sente o coração palpitar de emoção quando ouve palavras de agradecimento.

Não é orgulho, mas a certeza da missão cumprida. O carpinteiro, então canta.

 

Inesperadamente, uma orquestra de anjos chega para fazer companhia ao carpinteiro.

Ele se sente pleno, deixa sua enxó de lado e também entra numa ciranda de luzes.

Há sorrisos de agradecimento e a partilha divina de todas as coisas por ele criadas.

Não há dor nos calos das mãos do carpinteiro. Ele vive a verdade que se sustenta...

 

Ao primeiro sussurro de sofrimento, o carpinteiro para com sua tarefa de construção.

Ele entende que há coisas que podem esperar e outras, que precisam ser resolvidas.

Há poesia pura quando o carpinteiro toma sua decisão e age com celeridade.

Volta-se para construção. Há muito por fazer. Há um universo em andamento.

 

Jossan Karsten

 

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Jornalista, publicitário e escritor.

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