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'Cash' era a autobiografia necessária para imortalizar o legado de Johnny Cash

'Cash' era a autobiografia necessária para imortalizar o legado de Johnny Cash

Foto: Ana Bubola 

Não sou o maior fã de autobiografias. Acho um gênero um pouco mais complicado de conquistar o coração do leitor, principalmente porque acredito que é importante o público se identificar ou admirar o sujeito principal da história. No meu caso, a autobiografia que mais me encheu os olhos foi a do cantor norte-americano Johnny Cash, um dos meus grandes ídolos na música e, até hoje, um dos maiores ícones do Country nos Estados Unidos. 

Cash – Patrick Carr, Johnny Cash, Editoria LeYa, 2013- é narrado em primeira pessoa pelo próprio “Homem de Preto”. E acho esse foi um dos pontos que me conquistou. Durante todo o livro foi como se Johnny Cash, nascido no estado de Arkansas em 26 de fevereiro de 1932, estivesse conversando comigo e me contando tudo sobre sua vida, e não apenas os momentos de glória, comuns na vida de uma estrela da música. 

 Johnny Cash conta como foi perder o irmão mais velho, Jack, em 21 de maio de 1944, devido a um acidente com uma serra, cujo ferimento se estendia das costelas até a virilha. E foi aí que descobri que esse homem não era apenas um gênio da música (na minha humilde opinião), mas sabia muito bem expressar seus sentimentos com palavras: “Não há escapatória à dor e à perda: você pode evitá-las tanto quanto quiser, porém mais cedo ou mais tarde vai ter de encará-las, atravessá-las e, com sorte, chegar ao outro lado”. 

E acho que isso foi o mais legal dessa autobiografia. Pude conhecer Johnny Cash mais de perto e de alguma maneira romper essa barreira que existe entre nós, meros fãs mortais, e nossos ídolos da música. A maneira como ele conta as histórias no livro me deu a sensação de que éramos grandes amigos e de que eu o escutava tomando café da manhã numa bela manhã de domingo, sentados em uma varanda e admirando a natureza e o brilho do sol. Esse é o tamanho de “Cash”, que flui com uma narrativa muito tranquila e agradável de se ler. 

Durante as 261 páginas do livro, percebi como Johnny Cash, e muito provavelmente outros grandes músicos, são gente como a gente: pessoas comuns, com muitos problemas, amizades sinceras e amores e paixões semelhantes às nossas. Foi graças à autobiografia que descobri a bonita amizade entre Johnny Cash e Roy Orbison, autor de “Pretty Woman”. E uma passagem em si me deixou arrepiado. Johnny sempre quis deixar o cabelo com um rabo de cavalo atado com uma fita preta, e Roy disse que imitaria o penteado caso o amigo tomasse a iniciativa. 

Johnny Cash e Roy Orbison nunca mais se viram, e, pouco depois, Roy faleceu. O resto da história prefiro contar nas palavras do próprio Johnny: “Fui lá e me debrucei para dar uma última boa olhada no meu velho amigo. Quando o vi, não consegui me segurar. Comecei a rir. Aquele desgraçado tinha cumprido a palavra. Lá estava: debaixo de sua cabeça, aparecia um pequeno rabo de cavalo caprichosamente amarrado com uma fita preta”. 

E é assim que o livro vai caminhando, com um Johnny sincero e franco. Eu, por exemplo, sabia da paixão verdadeira que ele nutria pela sua amada esposa, June Carter Cash, com quem foi casado até a morte dela, em 15 de maio de 2003 (Johnny faleceu em 12 de setembro do mesmo ano). Porém, nunca tinha visto Johnny falando da importância dela em sua vida. June o ajudou muito a superar o vício em anfetaminas e álcool, mas como o próprio Johnny Cash afirma no livro, em uma impactante frase: "o único ser humano que pode salvar uma pessoa é ela mesma". Pensamento que carrego comigo até hoje. 

Ao meu ver, um amor como o de Johnny Cash e June Carter deve servir de exemplo para todas as pessoas. Pois, aposto, era um relacionamento como os de muitos de vocês que estão lendo essa coluna.  “Para mim, ela é a mulher de mais fácil convivência no mundo inteiro, acho que porque a conheço tão bem e ela me conhece tanto, e nos damos maravilhosamente bem. Se parece que vai haver alguma tensão entre nós, conversamos e resolvemos tudo, ou eu saio para dar uma caminhada e ela sai para dar uma volta de carro, até que passe”. 

A leitura é mais do que recomendada. Mesmo que você não seja um fã ou não conheça muito da obra musical de Johnny Cash (autor de sucessos como “Ring of Fire”, Folsom Prison Blues” e “Jackson”), o livro vale muito a pena pois Johnny não é retratado como um pop star e sim como um homem simples e comum, cujas raízes eram do interior dos Estados Unidos. Não deixem de ler. 
 

Colunistas - RIC Mais PR
Guilherme Osinski
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Formado em jornalismo pela PUCPR, Guilherme Osinski é natural de Curitiba e apaixonado por livros, principalmente os de suspense e ficção policial.

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