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Coisa de desocupado

Coisa de desocupado

Vez ou outra a fúria invade.

Há um pulsar frenético do coração.

Há dias pesados, sem cumplicidade.

Tempos que voam sem dar lugar à razão.

Não há sonho que vença a maldade.

Gritos ecoam pelo vale da solidão.

Pessoas parecem flutuar no espaço.

A esmo, seguem a existência num embaraço.

 

Daqui do alto, lá embaixo tudo é pequeno.

Movem-se as criaturas sem rumo algum.

Dá-se a impressão de que beberam do mesmo veneno.

Infinito caminhar neste eterno senso comum.

Foi-se o dia, agora é noite sem sereno.

Pelo espaço, odor intenso de fartum.

Há quem sonhe em meio ao caos infame.

Sentem-se seguros, embora presos por cercas de arame.

 

Os corpos são redutos de desamor.

Ninguém mais se permite sentir saudade.

É da lei, sorrir sem graça e esconder a dor.

Viver tornou-se eterna falsidade.

Toda mentira gera medo e rancor.

A beleza se camufla nas trapaças da cidade.

Enganar é gesto simples e corriqueiro.

Dizem-se no conforto, mesmo estando num chiqueiro.

 

A misantropia parece ser necessária.

Cada um quer se sentir num mundo à parte.

Convivência é motivo de represália.

Desconsideram a beleza, o amor e a arte.

Andar é como pisar em navalha.

Sonhos são lembranças num velho encarte.

Sentir a existência é para desvairado.

Tentar ser feliz é coisa de desocupado.

 

Jossan Karsten

Colunistas - RIC Mais PR
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Jornalista, publicitário e escritor.

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