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'Imagine' revela um pouco da personalidade e traumas de John Lennon

'Imagine' revela um pouco da personalidade e traumas de John Lennon

Foto: Ana Bubola 

Os Beatles são uma daquelas bandas que até hoje despertam interesse e motivam diferentes materiais, entre eles livros, reportagens, filmes, sobre seus respectivos integrantes. Em abril de 2020 completam-se 50 anos da separação do grupo britânico, mas os quatro garotos de Liverpool continuam mais atuais do que nunca. E em Imagine – Crescendo com o meu irmão John Lennon – Julia Baird, Editora Globo, 2008- conhecemos um pouco mais sobre quem realmente foi John Winston Lennon, segundo relatos de sua própria irmã. 

O livro é muito interessante, pois desmistifica algumas verdades inquestionáveis sobre John Lennon. Entre elas, por exemplo, o fato de que logo pequeno John teria sido negligenciado pela própria mãe, para posteriormente ser criado por uma amorosa e carinhosa Tia Mimi. Julia Baird, filha de um segundo relacionamento da mãe de Lennon, nos conta um outro lado da história. 

Na realidade, a mãe, que também se chamava Julia, ainda era casada no papel com Alf Lennon, pai de John, quando conheceu Bobby Dykins. Como Alf, durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhava no mar, ele passava muito tempo fora de casa. Depois de muito tempo sem notícias, Julia resolveu seguir em frente e conheceu Bobby, com quem teve duas filhas: Julia Dykins, que depois adotaria o sobrenome Baird em virtude de seu primeiro casamento, e Jacqueline Dykins. 

No entanto, o relacionamento de Julia e Bobby não foi só motivo de alegria. Toda a família de Julia passou a enxergá-la como pecadora, por não ser casada com Bobby, e a consequência foi terrível para ela: John Lennon passaria a viver com a Tia Mimi, que, apoiada pelas demais irmãs e também pelo próprio pai, tomou a guarda do então garoto de cinco anos de idade. Julia só veria seu filho com a permissão de Mimi, uma dor terrível para uma mãe. 

E isso teve sequelas inevitáveis para John. Ainda mais porque aos 17 anos, quando ele e Julia haviam se reaproximado, já que não era mais possível segurar um adolescente em casa e impedi-lo de viver a vida, o futuro Beatle sofreu o pior dos golpes: Julia foi atropelada por um policial bêbado, falecendo no dia 15 de julho de 1958. John viria a dizer mais tarde: “perdi minha mãe duas vezes. A primeira, quando tinha cinco anos e, de novo, aos dezessete. Isso me tornou muito amargo mesmo, por dentro. Eu tinha acabado de estabelecer um relacionamento com ela quando ela foi morta”. 

O livro gira muito em torno de como a falta da mãe afetou John Lennon e até mesmo sua irmã, Julia Baird, que ouvia de suas tias coisas como “você não faz parte da família”. O curioso é que a autora expressa seus sentimentos, muitas vezes de tristeza por tudo que aconteceu, mas concentra-se em relatar os fatos, sem fazer nenhuma grande crítica às atitudes da família. O julgamento fica para os leitores. Com tudo que ela conta, é possível entender porque John não foi o melhor dos pais para seu primogênito, Julian Lennon. Talvez pelo fato de que o Beatle nunca teve uma figura materna e muito menos uma paterna para se espelhar. É incrível como traumas da infância podem caminhar conosco eternamente. 

Imagine também conta detalhes sobre o nascimento do talento musical de John e do surgimento dos Beatles, fruto de um despretensioso encontro entre Lennon e Paul McCartney no final da década de 50. Todos os apaixonados pelo quarteto de Liverpool deveriam agradecer a Julia, mãe de John, já que ela foi a responsável por lhe dar seu primeiro instrumento de corda, um banjo, ensinando-o os mais variados acordes. A partir daí John não pararia mais e o resto da história todos já sabem. 

Para quem gosta de música, e, principalmente, dos Beatles, Imagine é uma leitura imperdível. Até mesmo àqueles que se interessam por estudar relações familiares este livro é uma boa pedida. Julia Baird fala muito sobre John Lennon, que para ela era muito mais do que um dos líderes dos Beatles: ele era simplesmente seu irmão, e nunca deixou de ser, mesmo com todo o estrelato. Porém, ela também fala muito sobre si mesma, das alegrias e perdas que teve durante a vida (mãe e pai morreram em acidentes de carro), e de como perdoar coisas aparentemente imperdoáveis. Um ensinamento e tanto. 
 

Colunistas - RIC Mais PR
Guilherme Osinski
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Formado em jornalismo pela PUCPR, Guilherme Osinski é natural de Curitiba e apaixonado por livros, principalmente os de suspense e ficção policial.

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