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Leve ressaca

Leve ressaca

Avança sobre a serra o sol atrevido. Chega com força e brilho nato.

O dia já é outro, mas ela é a mesma de ontem. Passado? Passada?

O mar está de leve ressaca e ela não conseguiu curar a sua. Conseguirá?

Noite louca de perdição. Noite de encontro com os demônios.

Fugira ainda bem cedo. Matara horas no trabalho ingrato.

Enquanto alguns se reuniam em igrejas e casas, ela estava na rua.

De carona com o perigo, subiu o morro íngreme. Viu coisas. Sentiu.

Alucinação e realidade se misturando num poema escuro, recortado.

 

Tempo louco. Uma chuva caiu. Molhou-se de água e de suor.

Num beco estreito, abriu-se a muitos que deixaram dentro de si, seu gozo.

Não queria nada em troca além de momentos alucinógenos, desvairados.

Não que não tivesse gozado também, mas era diferente. Entregara-se.

Dera-se como expiação de pecados ainda nem cometidos. Santificação do ato!

Depois da chuva, o frio da noite. O vento no morro. Desceu sozinha.

Queria andar por andar. Não tinha mais planos. Esquecera-se.

O trabalho havia ficado na sexta-feira. Não voltaria mais para lá.

A noite virou um crepúsculo esquisito. Viu-se em outro tempo.

 

Foi-se por um túnel muito claro. Era outra agora. Gozava de prestígio.

Mãos lhe afagavam na passagem. Era ótima a sensação de ser desejada.

Gostava das cortesias. Amava a insistente vontade que tinham de lhe dar prazer.

E o prazer chegava aos turbilhões. Estava molhada. Múltiplos orgasmos.

Havia um correr de sangue nas veias, nos poros. Havia outra vida que agora vivia.

Mas o túnel se desfez depois da caminhada. O sol era verdadeiro agora.

Como um maluco, o sol não perdoa os sonhos e se levanta de um salto.

Atingida no rosto pela luz, não aguentou o impacto. Desabou na areia.

Como as línguas à noite no beco do morro, o mar lhe lambia sôfrego.

Gozou com as espumas salgadas a entrar em si. Era quase um sonho.

 

Não tinha importância o maldito emprego deixado na sexta-feira.

A possibilidade de doenças não lhe atingia. Blindara a alma.

Na areia, o sol lhe banhou misturado ao sal do mar assanhado.

Ciclistas, pedestres e motoristas estavam ao longe.

Entorpecida pelo marulho das ondas, sentiu-se em paz.

A areia era quente e úmida, quase um útero. Ressaca da vida.

Os sons foram sumindo, exceto o marulho. O mar lhe abraçava.

Para ela nada mais importava. Despira-se das ilusões e dos preceitos.

Com a vida pura e crua a lhe embalar, era somente a essência doce do ser.

Ao longe, muito longe, alguém a chamava pelo nome. Sentia o chamado.

Mas tinha nome? Não importava. Era somente uma mulher de ressaca.

 

Jossan Karsten

Colunistas - RIC Mais PR
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Jornalista, publicitário e escritor.

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