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Mar e montanha

Mar e montanha

Impregnada de medo e dor, ela aprendeu a voar.

Desconsiderou as ameaças e partiu sem olhar para trás.

A vida era mais do que aquelas paredes fétidas, escuras.

Com os filhos no colo, humilhou-se e pegou a estrada.

 

Não, o caminho não foi fácil. Houve pedras, buracos, dor.

Mas a imagem do inferno lhe impulsionou a viver.

Ela que sempre foi de mar, precisou conhecer a montanha.

Em seu encalço, a perseguição não cessava. Ameaça silenciosa!

 

Muitos lhe viraram as costas. Muitos a odiaram.

Mas um ou dois entenderam sua situação. Mão estendida!

Numa casinha isolada, ela se instalou. Tudo difícil.

O medo do desconhecido fê-la tremer. O vento soprou forte.

 

O inverno se acirrou. Aprendeu a usar o machado.

Os filhos estavam bem, embora com medo. Cortou lenha.

Numa noite sem lua, um estrondo seguido de passos.

O demônio voltara a lhe atormentar. Pressentia.

 

E todas as dores e medos chegaram com força.

Reviveu em segundos a agonia do abuso, da violência.

Mas não seria como antes. Jamais seria. Estava determinada.

Os filhos dormiam. Ela saiu da casa. Parecia outra mulher.

 

Ele estava escondido em um canto qualquer. Sorrateiro.

Só esperava a hora do ataque. Era tinhoso e cruel.

Mesmo no curto tempo de montanha, ela aprendera muitas coisas.

De machado na mão, farejou o perigo. Inalou o ar da coragem.

 

Ele estava próximo da pedra grande. Lugar liso, de ribanceira.

Avançou sobre ela sem piedade como sempre fazia.

“Você será sempre minha, sua puta!”, gritou com a boca espumando.

O vento levou para longe aquele som diabólico de hálito fétido.

O machado assobiou. Golpe certeiro. Na cabeça. Esfacelar.

 

Como pedra, ele rolou pela montanha. Deterioração.

Ela tremeu, mas não de frio. Sentia arrepios, ânsia de vômito.

Por fim, voltou para casa, lavou o machado e banhou-se.

Entrou no quarto e notou que os filhos continuavam a dormir.

 

E pela primeira vez em anos, ela mergulhou num sono de paz.

Agora estava livre e podia voltar para o mar, para a luz quente.

Montanhas são perigosas e engolem pessoas. Todos sabem disso.

Em paz, hoje ela sente que tudo foi necessário. Tempo de expiação.

 

E os voos são cada vez mais longos e perfeitos agora.

Olha para os filhos que brincam na areia e sorri. Eles crescem.

No tempo que sobra, ela canta, pois é rouxinol afinado e livre.

O mar é purificação da alma. A montanha guarda segredos de corpo.

 

Jossan Karsten

Colunistas - RIC Mais PR
Jossan Karsten
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Jornalista, publicitário e escritor.

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