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Portão rangedor

Portão rangedor

Por mais de vinte anos, via a mesma paisagem.

A mesma rua, as mesmas casas decrépitas.

Crianças nasceram, cresceram e morreram.

Algumas pela fome, outra pelas drogas.

Jovens foram mortos a facadas, pauladas e tiros.

Tudo na mesma rua, mas ele estava ali.

De madrugada, o ônibus da fábrica de papel.

À noite, uma passada na bodega, compras.

Uma cerveja no domingo e a solidão de duas décadas.

 

Chegaram os homens dos recursos humanos lá no setor.

“Estamos modificando as coisas. Plano de carreira”, disseram.

Sem estudo, não servia mais para aquele trabalho.

Tudo moderno, digital. Toques suaves nas telas.

Havia a proposta. Indenização alta. Fundo de garantia.

Dariam tempo para pensar. Mas não havia o que pensar.

A casa não era sua. Nada era seu exceto a gata.

Sim, tinha uma gata que aparecera faminta uma noite.

Filhote ainda, mas se apegara a ele. Ele também a ela.

Manhosa, dormia o dia todo. À noite, queria brincar.

O velho, dono da casinha, era um miserável, esfomeado.

Todo dia dois, com chuva ou sol, estava à porta. Aluguel!

 

Voltou para casa naquele fim de tarde e estava leve.

Passava um pouco dos cinquenta anos e podia recomeçar.

Engraçado, que nunca tinha pensado naquilo: “recomeçar”.

Mas sabia que podia. A gata subiu em seu colo. Ele sorriu.

Passou a arrumar as coisas. Calculou tudo. Tinha dinheiro.

Podia ir para onde quisesse. Estava livre, finalmente.

Gritos na rua. Voltou à realidade de mais de vinte anos.

A mulher corria e pedia socorro. Sangrava. Fora agredida.

Teve ímpetos de se acovardar como sempre fazia. Fechava as portas.

Não se reconhecendo, mais uma vez, saiu da casa.

Abriu o portão rangedor e chamou a mulher que entrou no pátio.

“Ele vai me matar. Está armado. Já me cortou”, gritou a vítima.

Era uma vizinha que ele nunca tinha visto. Chorava.

 

Em pouquíssimo tempo, ouviu o trotar do brutamontes.

O desgraçado tinha um facão na mão e brandia-o no ar.

Todos se recolheram para suas casas e para seus mundos de mentira.

Ele não. Não daquela vez. Estava pronto a fazer algo novo.

Fez. Pegou um bastão que usava para dissolver a gordura da pia.

Há muito que usava aquele pedaço de pau para limpar a caixa.

Sempre que a água da pia não descia, corria ao lugar certo. Resolvia!

O bastão estava ali, meio ensebado, exceto no cabo. Teria outra função agora.

Tornou a abrir o portão rangedor. Esperou. Como touro, o louco chegou.

Foi uma paulada apenas. Na cabeça. Como boi abatido, desabou.

A vizinhança chegou. A rua se encheu. A mulher sangrava, mas ninguém via.

Baixou polícia antes dos bombeiros. Voz de prisão. Não importava.

Na ambulância, o brutamontes acordou. Não tinha morrido, só desmaiado.

Foi liberado. A delegada era sensata ao que lhe pareceu.

O brutamontes ficou aleijado. Nunca mais viu a mulher agredida.

 

Acertou as contas e pegou a ótima indenização.

Comprou uma gaiola para a gata e uma passagem para bem longe.

Mais de vinte anos... Tempo demais para ficar em um único lugar.

Não ouviria mais o range do portão nem gritos na rua.

Nada de saber de meninas grávidas nem de moleques assassinados.

O tempo, para ele, era de recomeçar, mesmo depois de cinquenta anos.

E ele refez-se. Foi tudo muito natural. Esqueceu-se da fábrica.

Nada de ter que aprender na marra sobre toques nas telas, plano de carreira.

Sem supervisão, sem relógio-ponto ele baliza sua vida do seu jeito.

Matriculou-se em um curso de pintura. Tem muito para aprender.

Mas o que é a vida senão um aprendizado constante?

Amor? Quem sabe? Deve haver alguém em algum lugar. Deve haver...

 

Jossan Karsten

Colunistas - RIC Mais PR
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Jornalista, publicitário e escritor.

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