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Sujeira da miséria

Sujeira da miséria

 

Nas entrelinhas da Carta Magna, há mistérios, suspense, escravidão.

Entre as pilastras das casas de leis, há agonia, gritos de dor, desespero.

Pelos porões da mediocridade e da corrupção, o medo impera soberano, vil.

Cara suja e pés no chão são elementos de desmonte da vida e da liberdade.

A palavra “humanidade” se esfacela em falsas interpretações mundo afora.

Ninguém vê o brilho de um sorriso por detrás da sujeira da miséria.

 

Gritam nos alto-falantes palavras de ordem, mas querem mesmo o medo.

Não há sentimento humanitário quando o poder é ameaçado.

Congressos, câmaras, palácios e púlpitos são palcos de barganha.

Negociam com a vida e a dor alheia, alheios aos sentimentos, ao amor.

A inocência se desfaz quando a infância é corrompida pelo medo.

Fardas e gritos de ordem assustam, fazem perder o sono e a paz.

 

No silêncio, há dor e agonia de quem não pode sequer se mexer.

Não há povo sentado à mesa das decisões, pois estes são banidos.

Povo, neste mundo de mandões, só serve como moeda de troca.

A poeira da miséria empesteia a beleza infantil e perfeita que deveria ser o futuro.

Assinaturas de idiotas matam mais do que golpes de cimitarra. Atentado!

Nos vales miseráveis e sombrios, a mentira e a ilusão imperam, elevam-se.

 

Não tem valor quem não dispõe de valores no bolso ou no banco.

Mesmo na base da falcatrua, ser próspero é só o que vale.

A Carta Magna há muito que virou caderno ensebado de contabilidade.

Débito e crédito são lançados numa conta que nunca fecha. Dispêndio!

Paga o pato, paga o boi, paga o petróleo quem não pode nem comer.

Fazer viver de engodo é a grande messe dos pregadores de mentiras.

 

Como urubus, exploram o lado podre da vida e espalham migalhas fétidas.

Sob a poeira e a lama, os olhos brilham pela lágrima da dor da fome.

Ninguém sabe do sofrimento do maltrapilho, quando se dorme sobre sedas finas.

Acendem charutos putrefatos com as páginas da Carta Magna. Gargalham!

Nem a lente mais poderosa da mais moderna câmera capta a dor da alma.

Avalanche de lama férrea e densa soterra sonhos e restos de vida...

 

Tudo está escrito nas entrelinhas da Carta Magna, mas não se vê.

Códigos indecifráveis são criados nestes tempos de dominação e fúria.

É brutal a luta entre pés descalços e gente de coturno. Massacre sanguinário.

Fronteiras virtuais se fecham num simples piscar de olhos, num toque de tela.

Sem lei, sem vida e sem esperança, os sorrisos se camuflam sob a poeira.

Há lama e o inferno da corrupção se perpetua sob as bênçãos da Carta Magna.

Jossan Karsten

Foto: Arquivo Agência Senado.

Pequeno engraxate barrado na entrada do Congresso durante a Constituinte de 1988.  

 

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Jornalista, publicitário e escritor.

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