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Um quase esqueleto

Um quase esqueleto

Caminho totalmente desconhecido.

Os anos mudaram as coisas de lugar.

A gente era toda diferente e esquisita.

Voltar foi como cutucar velhas feridas.

Decisão estúpida aquela. Ir ao passado.

 

“O velho morreu”, dizia a mensagem.

No início, nada entendeu. Quê?

Depois, a viagem de volta. A dor.

Trinta anos o separavam daquilo.

“O velho morreu”. E daí?

 

Era como se cumprisse uma promessa.

Mas que promessa? Por que aquilo?

Sim, o velho estava morto. Era o fim.

“Todos se vão um dia”, pensou no aeroporto.

Viagem. Baldeio. Ônibus. Velório? O quê?

 

Mais mensagens. Apressavam-no.

“Temos que enterrar o velho. Vai feder”.

“Só falta você chegar. Apresse-se”.

O táxi entra na cidadezinha.

Fedor de merda de porco nas narinas.

 

Na matriz, algumas pessoas.

Missa de corpo presente.

O velho nunca ia à igreja.

Era generoso com as festas. Só isso.

Expiação? Promessas? Medo? Sabe-se lá!

 

Ninguém nunca soube qual era a do velho.

Sempre com suas ameaças.

“Eu te arrebento e te deserdo seu imbecil!”.

Os irmãos temiam. Ele, não.

Peitava o velho. Fugiu aos quinze anos...

 

Agora o velho estava morto.

Dois meses no hospital. Agonizou.

Próstata. Nunca fez um exame.

“Médico é coisa para marica”, dizia.

Agora estava ali, prestes a ser enterrado...

 

O táxi para em frente à matriz.

Desce. Pede para o homem esperar.

“Às suas ordens, chefe!”, diz o negro taxista.

Todos na igreja se voltam para ele.

Sente os olhares como pregos em sua carne.

 

Não sabe como agir, nem o que dizer.

Demora a reconhecer o irmão mais novo.

Está gordo, envelhecido e fede à merda de porco.

A cidade inteira fede à merda de porco.

Cumprimenta o irmão com um abraço frouxo...

 

O caixão ainda está aberto.

Lá dentro, um quase esqueleto.

Não sabe o que fazer naquele momento.

Tenta interpretar algum sentimento. Nada.

De novo sente os olhares. Treme, agora.

 

“Já vamos levar o velho”, diz o irmão.

“Tudo bem”, murmura e sai da igreja.

O caixão é levado para fora.

Um cabo de vassoura escora a porta do carro fúnebre.

Ele entra no táxi. “Hora de voltar”, anuncia.

 

As nuvens negras desceram.

Uma chuva começou a cair.

O táxi corre pela estrada estreita.

Adiante, o trevo de acesso. Rodovia. Finalmente.

“Enterramos o velho”, nova mensagem do irmão.

 

“Dá para correr um pouco mais?”, pergunta.

“Claro, chefe! Vou meter o pé!”, responde o negro.

Abre um pouco a janela. Sente a chuva na cara.

Não há mais cheiro de merda de porco.

Respira fundo. “Só quero ir para casa”, pensa aliviado.

 

Jossan Karsten

 

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Jornalista, publicitário e escritor.

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