[ editar artigo]

Velocidade de cruzeiro

Velocidade de cruzeiro

Éramos loucos, eu bem sei. Fomos além das forças, da resistência.

Nunca medimos consequências. Apenas vivemos como adolescentes.

E tudo foi tão fugaz, tudo voou como um supersônico em velocidade de cruzeiro.

Neste pouso forçado, houve sequelas máculas perpétuas, mas também, a vida.

 

Anos depois, me diz que viveu um luto sem morte por minha causa.

Eu te digo que as sensações de sarcófago me atingiram em cheio.

Como esquife, meu corpo guardou tua alma trôpega, mas não te largou.

Aguentei as dores lancinantes das feridas abertas, mas te mantive em mim.

 

Nunca me esqueço de que éramos loucos e ávidos pela vida. Almas gêmeas, sim!

De um jeito torpe, nos adaptamos à vivência comum, mesmo sendo incomuns.

Estamos deslocados e, por isso, sofremos e fingimos que está tudo bem.

Eu olho para o futuro e não me vejo sem você. Eu não minto para mim.

 

Apesar de tudo, me é acalento nestas noites frias de vento incessante.

Sinto falta do teu corpo vulcânico antes do sono entremeado por pesadelos.

Ao acordar, tateio pela cama, mas você é uma dolorida ausência.

Não sei mais nada sobre o que sente. Mas sei de mim e que te amo...

 

Ontem revi nossas fotos. Guardo teu sorriso aberto na mente e no coração.

Incrível como o tempo não passa para você. Teu ar é o mesmo, mas é triste.

Ainda é menina travessa, mas eu gostaria que sorrisse, que gargalhasse.

Não, não me diga que é feliz, pois eu sei de tudo. No fundo, eu sou você.

 

Longe, somos metades soltas num tempo insano, numa atmosfera amórfica.

Não nos encaixamos em outros corpos e você bem sabe. Há uma recusa natural.

Eu tremo quando penso em ti e uma enxurrada de coisas chegam e me preenchem.

Como um louco, eu rodo pelo quarto te imaginando em meus braços num valseio.

 

Uma nuvem negra paira sobre a casa e esse maldito vento que não passa!

Chove a cântaros nesta época do ano e há um frio esquisito que castiga sem dó.

Relâmpagos invadem as janelas de cortinas velhas e rotas. Vivo o abandono.

Olho para o nada e procuro me conter para não desabar com a tempestade.

 

Outro dia assinei uns papéis e mandei documentos pelo correio. Estalo no cérebro!

Desde que se foi, parei de escrever cartas que enviava todos os dias como num ritual.

Estranho como um simples gesto diz muito da existência de cada um e do amor.

Eu só queria falar contigo e recomeçar a vida regada ao teu riso de menina travessa.

 

Jossan Karsten

Colunistas - RIC Mais PR
Jossan Karsten
Jossan Karsten Seguir

Jornalista, publicitário e escritor.

Ler matéria completa
Indicados para você