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Visita de silêncio

Visita de silêncio

Os tempos continuam loucos por aqui, meu amor.

Tudo parece de cabeça para baixo, tudo é medo.

Tragédias, dores, arrepios e muita falcatrua.

Na verdade, nada mudou desde que saiu de órbita.

 

Olho para você e confesso que sinto inveja.

Você dorme este sono estranho, mas no mais, parece bem.

Gostaria de saber se você sonha e, se sonha, com o quê?!

Perdi muito nestes anos todos, mas ainda estou aqui.

 

Não adianta nem dizer, mas te visitar é minha rotina.

Chego, falo um pouco com as atendentes que me tratam bem.

Enveredo pelo corredor já muito conhecido dos meus passos.

Entro neste quarto e te observo por longo tempo antes de te tocar.

 

Seguro tua mão que às vezes está suada e um pouco fria.

Já notei, por muitas vezes, um pássaro cantando na janela.

Pelo visto, este pássaro me conhece muito bem.

Ele me entende. Ele sabe do meu amor. Gosto do pássaro.

 

O permitido é uma hora de visita, mas tenho extrapolado.

Olhar para você neste silêncio, neste sono profundo, me dá paz.

Quando é hora de ir embora, eu te beijo e afago teu peito.

Chego a pensar que você sente tudo isso, pois respira fundo.

 

Mas pelo que me disseram você está muito longe, longe mesmo.

Não me importo, pois eu estou presente, te vejo, e é o que basta.

Há muito que deixei de fazer planos. Vivo o hoje e nada mais.

Mas no fundo da minha alma, eu conto os minutos para que acorde.

 

Outro dia uma das atendentes me disse que casos assim são raros.

“Já vi gente acordar de uma hora para outra, mas é difícil”.

Eu não quero saber do tempo, nem de mais nada.

Eu só quero te ver, uma, duas vezes por semana. Amo te sentir.

 

Mesmo na rua, tenho a sensação de que ainda estou no quarto.

Enquanto perto de ti tudo vira paz e sono, aqui, não.

Por aqui, nas ruas desta cidade louca, as coisas urgem, gritam.

Vou para casa em silêncio, mas em meu ser, tudo digladia, explode.

 

Em casa, me distraio com um livro, com um poema.

Não consigo mais ligar a televisão e ver tanta tragédia.

Cada vez mais, a avalanche de lama fétida inunda tudo.

A vida nada vale. As ondas matam. Você dorme. Eu espero.

 

Jossan Karsten

Colunistas - RIC Mais PR
Jossan Karsten
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Jornalista, publicitário e escritor.

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